Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

TEMOS QUE FALAR!

1. Conheço um indivíduo que sempre que me vê, dispara: ‘Temos que falar!’. Logo me manifesto pronto para o ouvir, adivinhando que lá vem cravanço ou proposta de negócio infalível, mas invariavelmente o dito desaparece na bruma de onde primeiro surgiu e mais não diz. A realidade é que mal o torne a desenterrar numa esquina qualquer, é certinho: ‘Temos que falar!’. Não lhe conheço o nome, e eu, que sou um incompetente na arte de decorar rostos e feições, lá o vou arquivando naquela categoria recôndita do cérebro dedicada aos ‘chatos’, onde também se encontram os ‘gajos-a-evitar’, os ‘mãos-moles’ (aqueles que não tem força no aperto de mão) e os ‘opinistas’ (aqueles que tem sempre opinião definitiva sobre tudo que a Humanidade fez ou fará).

A verdade é que esta expressão, tantas vezes usada pelos portugueses, carrega um fardo de História e aculturação plena de alma Lusa. Ela não é mais do que o exacto espelho daquilo em que nos tornámos: ‘Temos que falar!’  é diferente de ‘Vamos falar!’. A primeira reflecte uma vontade de algo nunca concretizado, enquanto a segunda é um imperativo implícito na atitude e na gramática. Nós somos muito mais, enquanto elite, a primeira, e enquanto plebe, a segunda. Passamos a vida a combinar jantares que nunca acontecem e cuja intenção é mudar o mundo, criar projectos, ‘cruzar inputs’, enquanto em Trás-os-Montes ou na Madeira, lá vai a Dona Preciosa todos os dias dar o manjar aos porcos e escavar as courelas. Enquanto ‘elite’, não passamos de um molho de ineptos aspirantes a qualquer-coisa que, não poucas vezes, acaba em ministro ou dirigente partidário. Tudo porque soubemos atirar um ‘Temos que falar!’ à pessoa certa no momento certo, geralmente um superior hierárquicó-social, que atravessava uma  fase na vida mais mariscante (voltada para uma mariscada) do que concretizante. Todo o processo do ex-novo aeroporto da OTA é uma interminável série de almoçaradas, ‘discussões de projectos estruturantes’, larachas e campeonatos de golfe. Já se sabe: ‘Temos que falar!’. E foi assim que tudo começou. Mas também o seu inverso, Alcochete, teve a sua génese nesta já institucionalizada máxima nacional. Tudo gira à volta do mesmo: pareceres que afinal não ‘parecem’ e que tanto servem para construir como demolir. Venha de lá mais um almoço no Tavares que a falar de boca-cheia é que a gente se entende.

 

2. Quando me é dirigida esta frase, sei imediatamente que o seu autor se refere a um ‘projecto que tem em mente fazer’, um disco, um filme, uma ‘performance’, assim qualquer coisa vagamente criativa onde ele acha, se calhar bem, que eu me posso encaixar. A questão é que, em primeiro lugar, nunca o dito ‘projecto’ passará para além de uma tempestade neuronal, e, em segundo lugar, a sinapse que desperta tal ideia é o facto de eu me ter atravessado na sua frente e que desaparecerá mal eu atravesse a porta para a rua. Tenho a certeza de que este meu conhecido cria ‘projectos’ a cada instante, acomodados à pessoa e à profissão que tem naquele momento no seu campo visual. É o tipo de frase que ouvimos vezes sem conta em festas e cocktails, porque aí se misturam torrentes infinitas de ‘Temos que Falares!’ com potenciais vítimas destes franco-atiradores de vão-de-porta. De copo na mão lá andam um atrás de outros, enquanto os últimos tentam despistar os primeiros, para logo caírem num outro vão onde a célebre frase lhes é de imediato atirada por um terceiro acabadinho de chegar e cheio de ‘projectos a necessitar de serem falados urgentemente’. Este jogo do gato e do rato é a história da interação entre os que concretizam e os vulgarmente chamados ‘colas’, sendo estes últimos um up-grade, enquanto adultos, dos ‘colas’ do liceu que vulgarmente se penduravam nos que sabiam jogar bilhar e lhes colocavam giz nos tacos a troco de uma bolada e da sua companhia. Ser ‘cola’ não é fácil porque exige um lambe-botismo que vem, está visto, desde muito cedo, e cuja recompensa não está ao alcance de todos. É que o facto de saber jogar bilhar na adolescência não assegura ao bilharista lugar elegível em qualquer lista. É preciso ir estudando um bocadinho e inscrever-se numa juventude partidária. O ‘cola’ pode então estar mais tranquilo: mais tarde ou mais cedo lá chegará o convitezinho para dirigir uma secção regional de uma coisa-qualquer, assim uma espécie de pôr giz nos tacos mas em melhor.

 

3. A arte do ‘Temos que falar!’ é de domínio difícil. A leitura da Imprensa-de-Consultório é recomendada. Há sempre muito a aprender naquelas fotografias coloridas com mulheres decotadas e esticadas: são sempre a ‘esposa’ de alguém cuja profissão, cargo ou posto é conveniente memorizar porque sabe-se lá quão útil será tal informação na próxima Gala Benemérita pelos Bailarinos Coxos… É também difícil porque é preciso resistir à tentação de fazer alguma coisa, vulgo trabalhar. Afinal o que seria se se atravessasse à frente do candidato alguém assim verdadeiramente bem colocado, alguém que logo ali marcasse o almoço, e o ‘cola’ não pudesse por causa do emprego? Há que saber manter a postura: o ‘Temos que falar!’ não trabalha. Pensa. E pensa a tempo inteiro, em primeiro lugar no desenrascanço do jantar para esse dia (mas há sempre uma festa, uma vernissage, um ‘private event’) e depois nos ‘projectos’ inadiáveis que traz dentro de si e que vai aperfeiçoando até envelhecer. Altura em que, lá do alto, se abrirá uma nuvem de onde soará tronitroante: “Temos que Falar!”. E esse vai ser um jantar muito, mas mesmo muito difícil de desmarcar. Esse sim, um projecto inadiável para o qual convém estar pronto.

 

Pedro Abrunhosa

 

Porto, 12 de Janeiro, 2010

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 17:07
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